Segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

Campo Base do Evereste

A estrada não é em nada melhor que a do dia anterior, só não tem trabalhos a serem efectuados. Vamos a caminho do Campo Base do Evereste, em Rongbuk, e o efeito da Doença de Altitude começa a sentir-se – as dores de cabeça aumentam, as pulsações aceleram e parece que o sangue quer sair pelas têmporas. Por muito que nos tivéssemos informado sobre os sintomas, só sentindo. Damos dois passos, subimos dois degraus e ficamos estafados.

 

 

Passamos por aldeias típicas, onde temos de parar para pagar a “portagem”, e imediatamente somos abordados pelas crianças e adultos que se preparam para sair para o campo com os seus rebanhos. Mais à frente deparamo-nos com um jipe atolado na lama, mas acreditamos que tal cenário não nos vai acontecer, pois confiamos plenamente no condutor do nosso jipe, homem deveras experimentado e que percorre várias vezes por mês este caminho.

 

Aproximamo-nos dos yaks pela primeira vez e de duas mulheres que acompanham o transporte. Exigem um pagamento pelas fotos que lhe tiramos e dou-lhes, possivelmente, o equivalente a uns bons dias de trabalho. Não somos aconselhados a dar gorjetas, de preferência a crianças, para não caírem na mendicidade e passarem a viver das sobras dos turistas, mas vendo bem, um modelo na Europa faz-se pagar pelas sessões fotográficas, porque não no Tibete?

 

A paisagem é exuberante, os prados estão verdejantes, alguns acampamentos, rebanhos e yaks, salpicam o verde e amarelo das culturas, maioritariamente de cevada e mostarda. Ao longe as montanhas mais altas do planeta.

 

Chegamos finalmente a Rongbuk, a 4980m de altitude, onde se localiza o mosteiro Nyingmapa, o mais alto do mundo, reconstruído pelos monges que lá habitam. Anteriormente era o único local onde podíamos pernoitar, recentemente construíram um albergue onde nos alojamos. As jovens que lá trabalham recebem-nos com muita exuberância e sobem os degraus que nos conduzem aos quartos a correr, transportando malas e mochilas. Fico impressionada com a adaptação desta gente à altitude, eu que mal posso comigo.

 

Após o almoço de massa ou arroz, como sempre, acompanhado de legumes, deslocamo-nos de carroça ao Campo Base. São 7 km por entre as montanhas áridas com o Evereste a querer esconder-se atrás das nuvens. Vejo-o melhor mais tarde, no quarto do hotel, mas o cansaço nem me deu lucidez suficiente para tirar a única foto que me permitisse dizer mais tarde: “Estive lá”.

 

No Campo Base coloco a minha bandeira de oração e a do Mário, feitas em Angra num dos encontros dos Miragatos. O António prende a sua e a da Dulce. A minha é branca com os nomes dos meus amigos e familiares. Trouxe-os comigo ao local mais alto do mundo e lá ficaram.  Ainda hoje penso nelas a serem abanadas pelo vento e apetece-me lá voltar para me/as reecontrar.

 

No cimo do morro onde se encontram as bandeiras, partem e chegam pessoas de muitas partes do mundo, com especial destaque para um grupo de jovens chineses de um canal de televisão de perto de Shangai que transportam o símbolo dos jogos olímpicos de Pequim a todos os recantos da China e fazem questão de serem fotografados e filmados com o mesmo, acompanhados dos turistas que os rodeiam. São jovens, bonitos, bem vestidos e representam certamente a nova China, a geração Eu, entusiasmadíssima com a melhoria da qualidade de vida, com as novas opções de compra e que não liga minimamente às questões políticas, nem à liberdade ou falta dela, que parece abundar por aqui.

 

A noite é passada com dificuldade, as dores de cabeça intensificam-se, o António vomita várias vezes e partimos mais cedo, de madrugada, para Shigatse. Acordam-se os restantes elementos do grupo e à medida que descemos sentimos consideráveis melhoras.


publicado por margarida às 14:55
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