Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

da Doença da Altitude

Cometemos um erro fatal: fizemos todo o percurso até Rongbuk praticamente sem água.

No jipe em que sigo apenas um dos rapazes tem um cantil com água. No outro jipe a quantidade também não é muita. Passamos toda a manhã nesta longa jornada de ascensão lenta por estrada sinuosa e acidentada, e o sol sempre à espreita. Ora, beber água, é algo que sabemos de extrema necessidade tendo em conta os avisos que nos fizeram e que tivemos oportunidade de ler na preparação desta viagem. Mesmo assim, cometemos a inconsciência de não o fazer.

Começam a surgir os esperados sintomas: fortes dores de cabeça, uma sensação de tontura sempre que fazemos algum movimento e quando este movimento é algo mais de dez passos ficamos exaustos. É impossível sermos rápidos no andar ou em qualquer movimento. A subida de três ou quatro lanços de escadas com mais ou menos dez degraus em direcção ao quarto do hotel, é uma autêntica maratona. Tenho a sensação de travar o meu movimento, de evitar levantar os pés do chão ou mover demasiado os braços. Poupo a amplitude dos movimentos e dá-me a impressão que faço o caminho a pairar.

Depois do almoço já tardio, ainda saímos para visitar o campo base. Daí até ao local mais próximo que o comum turista pode ir são aproximadamente 7 km que fizemos em pequenas carroças tradicionais.

Novamente sem água. A emoção crescia com a maior aproximação do ponto mais alto do mundo. Colocamos as nossas bandeiras numa espécie de hino à vida e à amizade e ao amor, no fundo, um hino àquilo que de melhor desejamos para nós, para os nossos queridos, para o mundo.

Regressamos ao hotel e as dores de cabeça já são insuportáveis. O cansaço pesou e aterramos nas camas. Minutos depois, o sobressalto de um calafrio faz saltar a Margarida da cama. Está muito pálida, os lábios e dedos das mãos cinzentos e tremia muito. Pensamos ser o primeiro sinal de uma desidratação. Logo providencio que beba água quente o mais que possa já que esta é melhor absorvida do que a fria, e coloco alguns sais minerais para mater o equilíbrio electrolítico e facilitar a retenção da água. A Margarida muito lentamente recupera desse mal estar e voltamos os dois a atenção para as explosões que se fazem sentir nas nossas cabeça. Tenho a sensação que o coração se deslocou para dentro do crânio e que pressiona as suas paredes como que a querer saltar dali. Se pudesse medir a tensão arterial talvez entrava em pânico ao ver o valor. Queixamo-nos e sempre tentando descansar. Até que, depois de algumas horas com dores e uma sensação de desconforto generalizado decido erguer-me na cama pois tenho a ligeira sensação de querer vomitar. Quero confessar à Margarida esta sensação, mas não tenho tempo de articular a frase toda. Vomito em jacto para o chão. Travo o vómito por milésimos de um segundo para poder chegar ao balde do lixo e continuo a vomitar tipo torneira a toda a pressão. Quando termino, lanço-me a beber água quente porque tinha de a repor rapidamente. Em meia hora, bebi mais de um litro, mas não consigo aguentá-la. Nova sessão de vomito e encho meio saco de plástico que tinha colocado ao lado da cama. Pouso o saco e digo: “Isto está mau”. A partir daqui procedemos ao abandono do hotel o mais rapidamente possível. Contactamos com a agência de seguros pois a situação afigura-se critica se eu não conseguir reter água alguma. O médico da companhia de seguros entra em contacto comigo para me dar indicações consoante o relato do meu estado, mas eu já me havia antecipado. Ingeri 5 mg de metoclopramida (anti-hemético) que aliado à descida de altitude foi eficaz. Desta experiência do impacto da natureza sobre o corpo, chego mais ou menos são, mas salvo, a Shigatse. Mais uma experiência no limite.


publicado por umlugarassim às 18:49
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.posts recentes

. Chegada a Lhasa

. Ainda da nossa entrada ad...

. População

. A caminho de Gyantse

. Shigatse

. 9 de Agosto, 5.ª feira

. E o fado também esteve no...

. da Doença da Altitude

. Campo Base do Evereste

. a mais de 5000 metros

.arquivos

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

.links

blogs SAPO