Na fronteira do Tibete, Zhangmu, 6 de Agosto 2007
Estamos os três a escrever, os três rapazes. Mudamos a orientação das camas para evitarmos o incómodo de quem possa vir a ocupar as duas camas que restam no quarto.
“Quarto” é uma palavra difícil de enquadrar neste lugar onde nos alojaram. O chão é de alcatifa encardida, o cheiro que paira no ar é uma mistura de bafio e bolor. A humidade é considerável. Em cima das camas estão: um cobertor, uma manta, uma almofada e uma toalha de banho que tinham o ar de já terem passado por cinquenta pessoas sem serem lavados. Há apenas um lençol a cobrir o colchão e, esse, tem manchas cujas origens não posso decifrar. Há cabelos amontoados por toda a parte, insectos mortos e muitas outras sujidades desde poeiras, migalhas, lascas de tinta das paredes a descascar… rejeitamos todo o material colocado em cima das camas e todos, os três, colocamos o nosso lençol de campismo sobre o colchão húmido.
Penso que vamos dormir vestidos. “Dormir” é uma palavra querida e merecida depois de quase cinco horas de estrada desde Kathmandu.
Temos no quarto uma televisão que não sabemos se funciona. Não temos vontade de ver televisão e no meio deste cenário ela parece, no máximo, um objecto decorativo. Ao lado, numa armação de ferro há uma prateleira com dois alguidares de plástico e chinelos de dedo. Suponho pelo número de camas que sejam para dividir.
Não vou descrever as casas de banho, mas o pormenor do chinelo do dedo, está bem lembrado!
Continuamos, os três, a escrever, a coçarmo-nos, a matar borboletas e outros insectos com cara de poucos amigos, fazemos perguntas ou simplesmente divagamos.
As senhoras ficaram num hotel em frente. Fomos visitá-las e reparamos que as condições eram razoáveis comparadas com as nossas. Falamos com o guia para sabermos da hipótese de uma mudança. O máximo que conseguimos foi mudar para este quarto, do mesmo albergue, que em nada é melhor que o primeiro.
Aqui estamos, a 2300 metros de altitude, esperando autorização para avançarmos amanhã. Os chineses estão a alcatroar a estrada das Gargantas do Inferno para a passagem da chama olímpica dos Jogos de 2008. Esta é a estrada que vamos percorrer, mas temos de esperar ordem para avançar assim que as obras o permitirem.
Há cansaço por aqui. Chove torrencialmente, a água escorre a alto e bom som e as pessoas continuam na rua. Ouço conversas que não percebo e gestos de uma vida quotidiana humana que corre apesar das águas.
Boa noite.